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0 Crime e Castigo | Opinião

Com Crime e Castigo, a Editorial Presença inaugura a publicação da obra de um dos maiores escritores de sempre, numa nova e criteriosa tradução, feita directamente a partir do russo. Datado de 1866, este é o primeiro dos grandes romances que Dostoiévski escreveu já em plena maturidade literária, sendo, provavelmente, a mais bem conhecida de todas as suas obras. Recriando um estranho e doloroso mundo em torno da figura do estudante Raskólnikov, perturbado pelas privações e duras condições de vida, é uma das obras por excelência fundadoras da modernidade. Pelo inexcedível alcance e profundidade psicológica, sobretudo no que implica a exploração das motivações não conscientes e a aparente irracionalidade nos comportamentos das personagens, este autor russo tornou-se uma referência universal na literatura, sem perda de continuidade até aos nossos dias. Esta nova versão em língua portuguesa das obras de Dostoiévski, cuja qualidade permite ao leitor fruir plenamente da extraordinária riqueza dos textos originais, e da responsabilidade de Nina e Filipe Guerra.


Autor: Fiódor Dostoiévski
Editor: Editorial Presença (2007)
Género: Literatura Clássica > Romance
Páginas: 512

opinião
★★★★★ (5/5)

Trágica e emocional, Crime e Castigo é uma obra excecional em vários aspetos, como seja a profundidade psicológica do enredo, a ponderação crítica do mesmo e a complexidade individual das personagens intervenientes. Neste livro, Dostoiévski deixa-nos um extraordinário e profundo estudo da natureza humana, aliado a ponderações filosóficas, religiosas e políticas.

O crime é cometido quando o protagonista, Roskolnikov, assassina uma velha penhorista com o objetivo de lhe roubar dinheiro/pertences e também a irmã desta, que acaba por testemunhar involuntariamente o homicídio. O castigo surge logo depois sob a forma de culpa, remorso e medo.

Psicologicamente torturado, Roskolnikov passa a viver num turbilhão de emoções, alternando entre euforia e pânico, alegria e depressão, amargura e alívio - drama que Dostoiévski descreve de modo extraordinário!

A passo com o desassossego emocional, acompanhamos de perto as motivações de Roskolnikov, a sua atitude niilista e aparente confusão moral. Apesar de o jovem estudante viver na pobreza, este não foi o único fundamento para o malefício cometido; Roskolnikov divide as pessoas em dois grupos: as ordinárias e as extraordinárias. Colocando-se a si próprio no último grupo, Roskolnikov vê-se acima das regras da sociedade, intelectualmente superior e capaz de feitos importantes - não necessariamente éticos - sem sofrer por eles danos ou remorsos. Além de tudo isto, não considera o homicídio um ato condenável se a vítima não for um membro "útil" da sociedade; pelo contrário, encara a morte da agiota como um acontecimento benigno.

Roskolnikov irá - à medida que mente e corpo se corrompem em irracionalidades - que não está realmente no grupo dos extraordinários e a redenção chegará através do seu amor por Sónia, personagem de verdadeira devoção familiar e religiosa, cujo sacrifício (e "crime") tem como objetivo beneficiar os outros e nunca a própria.




Frases Preferidas
«essa sensibilidade de apanhar as coisas todas pelo lado bom também era doentia.» - p. 15

«Porque é necessário ter uma porta onde bater. Porque há momentos na vida em que é indispensável ir a qualquer lado, seja aonde for!» - 19

«O bandalho do ser humano habitua-se a tudo!» - p. 30

«Oh, sim, num caso destes abafamos também o sentimento moral; a liberdade, a paz, até a consciência, levamos tudo à feira da ladra. Adeus, vida!, mas que sejam felizes os nossos seres amados.» - p 46

«Percentagem! São bem bonitas, realmente, as palavrinhas deles, tão calmantes, tão cientificas. Diz-se: percentagem - portanto não é preciso mais nada, não há mais preocupações.» - p 52

«é a doença que engendra o crime ou é o próprio crime que, pela sua natureza especial, é sempre acompanhado por uma espécie de doença?» - p 71

«É assim que as coisas se passam: a pessoa honesta e sensível faz confidências, a pessoa prática ouve e come. E acaba por engolir-te todo, a pessoa prática.» - p 122

«São uns fala-baratos e uns fanfarrões miseráveis! Toca-vos um sofrimentozinho de merda e põem-se a cacarejar em cima dele como a galinha em cima do ovo! Até nisso cometem plágio.» - p 160

«Morrer é inconveniente!» - p 172

«a clareza de espírito, a frescura de sensações e um ardor puro e honesto do coração. Diremos entre parênteses que manter isso tudo é a única maneira de não se perder a beleza, mesmo na velhice.» - p 195

«as pessoas, pela lei da natureza, se dividem em geral em duas categorias: a inferior (vulgares), ou seja, por assim dizer, o material que serve unicamente para engendrar semelhantes; e os homens propriamente ditos, ou seja, as pessoas que possuem o dom ou o talento de dizer, no seu meio, uma palavra nova.» - p 245

«O sofrimento e a dor são sempre obrigatórios para uma consciência ampla e um coração profundo» - p 249

«O manhoso é sempre apanhado nas coisas mais simples.» - p 254

«porque não fazer-me de ordinário, já que esse é um traje tão cómodo para o nosso clima e… e sobretudo, para quem tenha uma inclinação natural para isso.» - p 268

«Era mais um dos muitos que formavam a legião enorme e heterógena de ordinários, abortos débeis e tiranetes diletantes em todas as matérias, que se agarram imediata e obrigatoriamente à ideia que esteja mais em voga, conseguindo banalizá-la num instante e transformar em caricatura tudo o que servem, às vezes do modo mais sincero.» - p 344

«somos pessoas diferentes… E sabes, Sónia, só agora compreendi, agora mesmo, para onde chamei por ti. Mas ontem, quando chamei por ti, eu próprio ainda não sabia. Apelei a ti e vim ter contigo por uma única razão: para que não me abandones.» - p 389

«porque sou tão parvo que não quero ser mais inteligente, só porque os outros são parvos e eu tenho a certeza disso?» - p 392

«quem for forte de espírito e de mente será soberano dos homens! Para eles, quem muito ousar terá razão! Quem menos escrúpulos tiver, será o legislador deles! Quem ousar mais do que os outros, terá ainda mais razão!» - p 392

«Torne-se sol, e será visto por todos» - p 433

«Que feitio tem essa gente toda! Nunca há-de confessar que, no fundo, acredita piamente em milagres!» - p 438

«Se na retidão existir nem que seja uma centésima parte de nota falsa, acontece logo uma dissonância e, a seguir, um escândalo. Com a lisonja, se for tudo falso, até à última nota, mesmo assim será agradável e ouvido com prazer e, mesmo que seja um prazer primitivo, é sempre um prazer.» - p 447

«Ter medo por estética é o primeiro sinal de impotência!» - p 485



«Ressuscitou-os o amor, o coração de um era uma fonte de vida inesgotável para o outro.» - p 510


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0 Noites Brancas | Opinião

O romance Noites Brancas foi publicado em 1848. A sua acção, toda ele impregnada de um intimismo delicado, decorre em Sampetersburgo. Na cidade buliçosa e distraída cruzam-se as linhas de duas vidas e de dois destinos. Um encontro fortuito e efémero, que, no entanto, marcará indelevelmente a vida dos dois protagonistas: um jovem de 26 anos, solitário e tímido, que deambula por entre a multidão como um fantasma e se exila no mundo do sonho para fugir ao prosaísmo do quotidiano, e uma rapariga momentaneamente desesperada que procura salvar-se das suas frustrações através do amor. Entre eles se estabelece, durante algumas noites, o fiálogo-confissão, com o estranho compromisso de não ultrapassarem a fronteira da amizade «fraternal».

Mas onde se situa a fronteira entre a amizade e o amor? Ambos acabam por admitir que a transpuseram. Mas quando regressa aquele que para a jovem foi o primeiro amor, despede-se do «amigo», lamentando que eles não possam fundir-se numa única e mesma pessoa, para, como desejaria, podes amar os dois indivisa e simultaneamente. 

Neste romance, em que, de maneira rápida mas penetrante, se analisam os dilemas, as flutuações e as contradições dos sentimentos humanos, se baseou o filme homónimo, conhecido do nosso público. 

Autor: Fiódor Dostoiévski
Editor: Europa-América (2007)
Género: Romance > Literatura Russa
Páginas: 140

opinião
★★★★★ (5 em 5)

« Criei, nos meus sonhos, romances completos » - p. 28

O protagonista deste romance, excessivamente tímido, vive em enorme solidão.
Passeando pela cidade, estuda os transeuntes sem iniciar com estes qualquer tipo de conversa, absorvendo os sentimentos que lhes adivinha, deixando que influenciem o seu humor: sente contentamento com a alegria alheia e apreensão quando lhes repara tristeza. Este tipo de existência é relatada e colocada em perspetiva quando o jovem - cujo nome não nos é revelado - se cruza com Nastenka, uma rapariga que (des)espera por um outro amor, aguardando o seu contato.

Conversando e partilhando confidências, os dois jovens vão descobrindo afinidades entre eles e acabam por se tornar amigos; ela conta-lhe como tem vivido isolada, sob a rígida autoridade da avó, e como acabou por conhecer o homem que aguarda e ele, intitulando-se «um sonhador», revela-lhe como tem deixado que a vida lhe passe ao lado, vivendo perigosamente isolado do mundo, atravessando dias sucessivamente vazios. « Tenho vivido, assim, como se costuma dizer, metido no meu buraco, isto é, só, absolutamente só, perfeitamente só... » - p. 41 Estas interlocuções e a reação de Nastenka permitem-lhe finalmente reconciliar-se consigo próprio e a amizade evolui, inevitavelmente, para amor.

Nastenka representa este jovem um despertar para a realidade. Contudo, ao sonho, manipulável a gosto, faltará sempre a consistência da veracidade… e a sólida realidade, com os seus vários elementos incontroláveis, tende a sabotar as nossas aspirações.

Infelizmente, Nastenka tem que tomar uma decisão. Poderá «contentar-se» com este novo amor, sabendo que se apaixonou enquanto pensava, falava e ansiava por outro homem ou poderá optar pelo amor pelo qual esperou tanto tempo, sonhando e desesperando pelo mesmo. Quando ao nosso sonhador, sabemos que regressa à solidão, desta vez ainda mais desgostosa e tétrica - « e no que poderei depois sonhar quando, acordado, ao seu lado, fui de tal modo feliz » - p. 64

Este é um livro muito bonito, cheio de significado nesta sua atmosfera melancólica que se harmoniza tanto com o ser «um sonhador». A prosa reflete o caráter do protagonista, a sua fragilidade e a leveza com que passa pela vida, e isso é algo com que raramente me cruzo num livro, ainda mais executado com este nível de excelência.


Frases Preferidas
«Caminhava cantando, pois quando estou contente gosto de cantarolar, como qualquer homem feliz que não tenha amigos, nem conhecidos, e que nos seus momentos de felicidade não tem com quem partilhar a sua alegria» - p. 22

«A inteligência só favorece a beleza» - p.26

«Quando o meu coração fala, a minha boca não se sabe calar.» - p. 27



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