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0 Diário Secreto (1836-1837) | Opinião

O famoso escritor russo Alexandre Puchkine, ferido de morte num duelo com o cunhado e rival, deixou um jornal secreto cifrado, recentemente descoberto e enviado clandestinamente para fora da Rússia. Muita especulação e muito mistério têm rodeado este diário. Diz a lenda que o testamento de Puchkine estipulava que o diário não poderia ser publicado antes de decorridos cem anos sobre a sua morte. Mas há quem afirme que o diário nunca existiu. O diário existe mesmo e consiste em confissões explícitas sobre as relações íntimas de Puchkine com a mulher, as duas irmãs dela e outras mulheres, que acabaram por arrastá-lo para um fim trágico.

Estes acontecimentos e revelações surpreendentes trazem à luz pormenores desconhecidos da vida de Puchkine - a vida de um Dom Juan russo do século XIX. Este Diário Secreto de Alexandre Puchkine é considerado a grande descoberta da literatura russa do século XIX.


Autor: Alexandre Puchkine
Editor: Difel (2006)
Género: Memórias e Testemunhos > Literatura Erótica
Páginas: 176
Original: Secret Journal 1836-1837 (1986)

opinião
★★★★
«Se o tempo para para alguém que está apaixonado, isso quer dizer que a única forma de parar o tempo é estar constantemente apaixonado. E como é impossível estar constantemente apaixonado por uma mulher, estou constantemente a apaixonar-me por mulheres diferentes (p. 84) A todas elas eu digo que a amo só a ela, e é a verdade puríssima, pois mos momentos de êxtase estou sinceramente apaixonado pela mulher com quem estou a partilhá-los. (p. 89) Uma vez dado o primeiro passo pecaminoso do adultério pisei um caminho que acabou por se tornar desonesto por todos os que se lhe seguiram, mesmo sendo honesto em si. Este caminho conduz-me ao abismo. Devido ao meu temperamento, não consigo parar. Levo tudo ao extremo, e a extremidade neste caminho leva à autodestruição. (p. 163)»

Sem saber ao certo o que esperar quando o comecei a ler, Diário Secreto 1836-1837 surpreendeu-me de forma bastante positiva! Gostei do estilo cru do autor, incorporado num discurso simultaneamente chocante e inspirador, com descrições vívidas, afirmações blasfemas relativas à genitália feminina e reflexões profundas.

Penso que, juntas, as três frases que coloquei no início nos dão uma boa ideia sobre a natureza deste diário. Nele, o carácter egoísta, contraditório, possessivo e pérfido de Pushkin vem ao de cima, bem como a sua obsessão sexual. Apesar de várias tentativas para fugir àquilo que ele próprio considera uma fraqueza, cede uma e outra vez à tentação e trai a esposa vez após vez… o que se revela especialmente irónico quando percebemos que Pushkin é extremamente ciumento; não suporta a ideia da esposa lhe ser infiel… e ainda mais quando contemplamos as trágicas consequências da sua desconfiança e ciúme.

Gostei bastante deste livro e fiquei muito curiosa em relação ao trabalho de Pushkin enquanto poeta pela intensidade do seu desejo, a vivacidade da sua natureza e a complexidade de alguns pensamentos que partilha neste diário especialmente os que se relacionam com a natureza do pecado e a sua perceção de amor/paixão.


frases preferidas:
ISBN: 9789722904346

«A fidelidade da morte é a única verdade inquestionável, apesar de ser a mais difícil de compreender; mas conseguimos fácil e descuidadamente aceitar e acreditar em muitas e diversas mentiras.» - 18

«Nada me pesava tanto como o fardo do desejo de felicidade pelo qual lutava sem sorte, e isso fazia-me infeliz» - 27

«Infelizmente, a vida ou dá paz ou liberdade, mas nunca as duas. A paz provém da resignação submissa, e essa paz não tem espaço para a liberdade. A liberdade empurra-me para ligações intermináveis, onde não há paz.» - 27

«É impossível compreender os sentimentos; temos de os sentir intensamente, pois ´só o sentimento consegue tocar o coração, e só o coração pode então enriquecer a mente.» - 28

«A fidelidade é uma batalha com a tentação de ser infiel.» - 53

«Deus não nos impede de conhecermos as suas leis, mas castiga-nos por qualquer tentativa de as mudarmos.» - 54

«O ser humano é uma criação de Deus, e a sociedade humana é uma criação do Diabo» - 91

«Comprar livros novos é um prazer muito diferente do prazer de ler: examinar, cheirar, folhear um livro novo é a própria felicidade» - 93

«O amor escraviza-nos induzindo o medo de perdermos os nossos amados.» - 94

«A luxúria é o orgulho do corpo; o amor é o orgulho da alma, um orgulho que não é mais que a luxúria da alma.» - 97

«O amor dá significado a tudo o que fazemos em seu nome e recompensa-nos com a independência relativamente a tudo o que lhe seja externo.» - 112

«O amor, como a morte, torna iguais o escravo e o senhor e apaga todas as diferenças entre as pessoas.» - 127

«O hábito faz-nos jurar coisas por que nunca passámos antes, de que não temos plena consciência. (…) O hábito aproveita-se da nossa ignorância e extorque-nos juramentos que mais tarde só podemos lamentar. Os juramentos de amor infinito são uma evidência do amor de hoje mas absolutamente nada daquilo que podemos garantir para o futuro.» - 160




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