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0 USA Today entrevista Lisa Kleypas

Pamela Clare, jornalista premiada e autora bestseller de romances históricos e contemporâneos entrevistou Lisa Kleypas para o USA Today
Lisa Kleypas é uma escritora de sucesso internacional, com mais de 30 romances publicados, traduzidos para 14 idiomas. É também autora da Série À Flor da Pele, actualmente a ser editada em Portugal.


Pamela: O seu primeiro livro foi publicado quando tinha apenas 21 anos, idade com a qual a maior parte dos jovens está mais preocupada com ressacas e discotecas do que com escolha de palavras, enredo e caracterização. Quando soube que queria escrever romances? O que a inspirou a sentar-se e começar a escrever aquele primeiro livro e que experiência em escrita criativa tinha?


Lisa: Sempre fui uma leitora compulsiva - lembro-me de ir à livraria local com pilhas de livros mais altas do que eu. Comecei a escrever o meu primeiro romance quando tinha apenas 16 anos. Na altura, frequentava um campo de férias de verão onde nos eram permitidas duas horas de tempo livre todas as tardes. As actividades à escolha eram natação, ténis, equitação ou escrita de cartas para a família e amigos. Eu tinha levado comigo várias folhas de papel e uma caneta azul-turquesa, e decidi escrever uma carta a alguém. Uma vez que era apenas o primeiro dia no campo de férias e eu não tinha ainda nada de interessante a reportar, comecei a escrever um romance histórico. Desde a primeira página, senti um clique de reconhecimento de que era aquilo que eu queria fazer para o resto da minha vida. Terminei de escrever o romance no fim do verão e a cada verão depois desse eu completava um novo livro. Ao inicio desconhecia completamente as regras da escrita - não sabia nada sobre pontos de vista, ritmo, enredo - mas queria aprender. Digo sempre aos aspirantes a romancistas que a paixão é a melhor qualidade que um escritor pode possuir - a técnica pode ser ensinada, mas o desejo de escrever tem que vir de dentro.

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Pamela: No seu discurso nos prémios RWA 2007, contou uma história sobre a sua casa estar inundada - e justamente por que os romances são tão importantes na vida das mulheres. Acho que não havia um único par de olhos secos na sala. Pode partilhar essa história com os nossos leitores?

Lisa: Muito obrigada! Lamento dizer que, nos primeiros dias da minha carreira, senti-me um bocadinho envergonhada por escrever ficção romântica. Eu frequentei o Wellesley College, um fantástico colégio onde as estudantes são encorajadas a perseguir os seus sonhos. Contudo, depois de me ter formado e ter um romance publicado, mais de uma pessoa me disse que, de qualquer das formas, a minha opção de carreira era um «desperdício» de tanta educação. Aliás, na minha primeira entrevista à rádio, o entrevistador terminou dizendo que esperava que um dia eu viesse a escrever um «verdadeiro livro». Alguns anos mais tarde, quando já era casada, o meu marido, o nosso filho de 3 anos e eu perdemos tudo o que tínhamos quando a nossa casa, no Texas, foi destruída por uma inundação. Os meus pais viviam perto, e a casa deles foi igualmente inundada. Três dias depois, quando a água tinha recuado o suficiente, eu e a minha mãe conduzimos um pequeno carro alugado até ao Wal-Mart mais próximo para comprar suprimentos. Concordámos que apenas tínhamos espaço para comprar o básico - pasta de dentes, meias, e assim. Mas quando chegámos à caixa para pagar, vi que tanto a minha mãe como eu tínhamos incluído uma necessidade «particular» nos nossos cestos...um romance. Ambas precisávamos de esperança, humor, amor e a garantia de um final feliz. A partir desse dia, nunca mais questionei ou duvidei do valor daquilo que faço. 

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Pamela: Essa história nunca deixa de me comover. Obrigada por partilhar connosco. Os leitores sentem que desenvolvem uma verdadeira conexão emocional com as suas personagens. O que envolve a criação destes personagens? O que é preciso para ficar a conhecer a personagem o suficiente para escrever a sua história?

Lisa: Antes de escrever a primeira página de um romance, perco imenso tempo a criar detalhes de fundo para as minhas personagens. Imagino as experiências que os moldaram, o que os faz felizes, os enraivece, amedronta e aquilo por que anseiam. A maior parte das minhas personagens têm dificuldade em confrontar os seus desejos e medos mais profundos. É difícil sermos honestos para nós próprios - odiamos admitir o quão vulneráveis ou carentes somos. Portanto, penso que os leitores se relacionam com a heroína que deseja algo - ou alguém - que pensa estar para lá do seu alcance. Desenvolvemos empatia por personagens que lutam e labutam e tentam dar o seu melhor...e é tão gratificante vê-los mudar e aprender durante o curso da história.

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Pamela: Há muito que é conhecida pelos seus romances históricos emocionalmente ricos. Surpreendeu toda a gente em 2007 com Sugar Daddy, tornando-se também numa popular e aclamada escritora de romances contemporâneos. A alteração para romance moderno trouxe-lhe a mudança e os desafios que pensou estarem a fazer-lhe falta, como escritora? O que é diferente em escrever contemporâneos e do que mais gosta ao fazê-lo?

Lisa: Independentemente da profissão, é sempre bom assustar-nos a nós próprios um bocadinho, de tempos a tempos! É crucial continuar a desafiar-nos e aprender com pessoas com mais experiência. E, ocasionalmente, é necessário experimentar alguma coisa na qual não sabemos se vamos ser bem sucedidos. Depois de escrever cerca de 20 romances históricos, estava desejosa de agitar as coisas e ver se conseguia encontrar uma voz como escritora contemporânea. Foi difícil mas excitante, e depois de eu ter terminado Sugar Daddy, descobri que poderia voltar a escrever romances históricos com um sentido de frescura e divertimento. O que mais adoro nos contemporâneos é que escrever sobre as personagens em situações modernas parece trazer pensamentos e reflexões que não me chegam quando estou a escrever romances históricos. Vivemos em tempos maravilhosamente complicados, em que homens e mulheres têm diferentes expectativas tanto para si próprios como para os outros. O choque entre essas expectativas provoca conflito e humor numa história e, por vezes, pode até ser bastante sexy!

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Pamela: Que qualidades ou temas diria que os seus históricos e contemporâneos têm em comum?

Lisa: Sem dúvida, tanto os meus históricos como os contemporâneos incluem quase sempre o tema de um forasteiro que tenta encontrar uma forma de encaixar. (Penso que qualquer pessoa que frequentou o ensino básico se conseguirá identificar). Eu cresci sendo muito tímida, viciada em livros, e lembro-me de ponderar desesperadamente sobre como poderia ser aceite pelos miúdos mais populares da escola. Eventualmente, encontrei um nicho nos romances históricos ao apresentar personagens que eram forasteiros de uma forma ou de outra. Criei vários heróis históricos que são homens ambiciosos, tais como o empreendedor dos caminhos de ferro, um hoteleiro, e o proprietário de uma casa de jogos. Contudo, apesar das fortunas que ganharam, eles parecem não conseguir lidar com as intrincadas regras da sociedade Vitoriana. Para mim, é fascinante juntá-los a membros da aristocracia e ver as faiscas a voar. 
As minhas personagens contemporâneas também tendem a ser forasteiros - um bom exemplo é o herói de Blue Eyed Evil, que cresceu num trailer em Houston e se torna num homem de negócios de sucesso - mas ele não está satisfeito com o que conquistou. Não é feliz. Essa procura por contentamento conduz a maior parte das minhas personagens - e claro, eles tentam encontrá-lo de todas as formas erradas. 
Penso que se há uma qualidade consistente na escrita propriamente dita, é que adoro incluir muita intensidade emocional nas minhas histórias. Não me poderão acusar de ter receio de exagerar! O meu lema é: fazer em grande ou ir para casa.

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Pamela: É um óptimo lema! E o mais maravilhoso é que a riqueza emocional das suas histórias é exactamente aquilo que os leitores adoram. 
Vamos avançar para as suas séries actuais. O que diria um guia turístico sobre Friday Harbor?

Lisa: Oh, é o sítio mais bonito à face da terra. Friday Harbor é um sítio real, localizado na Ilha San Juan, que faz parte de um arquipélago de Washington. A água mais pura e mais azul, o ar mais fresco, e uma ilha mística e pacífica. Em algumas alturas do ano pode sentar-se na praia e observar orcas a emergir da água. O meu marido, as crianças e eu tivemos os melhores piqueniques nas nossas vidas nesta ilha. E há alguns restaurantes com reconhecimento internacional com vista para o mar que a fariam chorar. Andámos de caiaque, de barco, de bicicleta e comemos marisco suficiente para matar uma pessoa normal. 

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Pamela: Parece ser um sítio que gostaria de visitar! O que inspirou esta série com o seu suave toque de paranormal? É esta variante paranormal algo que lhe desperta o interesse, como contadora de histórias?

Lisa: Algo sobre a atmosfera da ilha me levou a pensar que este era um local onde coisas mágicas poderiam acontecer. E quando comecei a brincar com ideias, pensei que era altura de diversificar um bocadinho e tentar inserir novos elementos nos meus livros. Adorei a noção de que a magia poderia afectar o desenvolvimento emocional das personagens. Tem sido divertido aprender novas técnicas de escrita! Aprendi que incorporar magia, mesmo suaves toques, requer que a escrita seja um bocadinho mais poética e inventiva. Tenho adorado explorar o mundo de Friday Harbor e deixar a minha imaginação correr à solta. 

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Pamela: Fale-nos de Crystal Cove, o quarto livro da série. 

Lisa: A história é sobre Justine Hoffman, uma bonita jovem que deseja apaixonar-se mas que ainda não conseguiu encontrar o homem certo. Na sua busca pela alma gémea, Justine faz terríveis descobertas: há muito tempo que ela foi amaldiçoada para que nunca consiga apaixonar-se. Enquanto ela tenta descobrir quem a amaldiçoou, e porquê, Justine sente-se atraída por um estranho misterioso, Jason Black, que está hospedado na sua pousada. À medida que desvendam os segredos sobre o passado de Justine, apercebem-se que o amor é infinitamente mais perigoso do que poderiam ter sonhado. 

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Pamela: Quantos mais livros tem em mente para esta série? E o que poderão os leitores esperar a seguir? Haverão mais romances históricos no futuro?

Lisa: Não sei o que se segue. Haverão com certeza mais romances históricos no meu futuro. Adoro-os demasiado para desistir deles. Para já, estou ainda a tentar perceber o que fazer a seguir - tenho toneladas de ideias e é apenas uma questão de reunir algumas personagens e cenários até que surja algo. 


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