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0 No Final Morrem os Dois | Opinião
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3 estrelas,
Adam Silvera,
Opinião,
Romance,
Young Adult
Pouco depois da meia-noite, Mateo e Rufus, dois completos estranhos, recebem a notícia de que vão morrer dentro de 24 horas. Neste último dia que lhes resta, ambos anseiam por fazer um amigo.
A boa notícia é que existe uma aplicação para isso. Chama-se Último Amigo e, através dela, estes dois jovens encontram-se para uma derradeira e intensa aventura: viver toda uma vida num só dia.
Para nos lembrarmos de que todos os dias contam.
Autor: Adam Silvera


Editor: TopSeller (Junho, 2019)

Género: Romance | Young Adult
Páginas: 352
Original: They Both Die at the End (2017)

Lincoln Award Nominee (2020), Goodreads Choice Award Nominee for Young Adult Fiction (2017)
opinião
★★★☆☆
Não importa como escolhemos viver, no final morremos os dois.
Mateo e Rufus vivem numa época em que, pouco depois da meia-noite, todos os que morrerem nesse dia ficam a sabê-lo através de um telefonema. Circunstâncias do seu último dia, levam-nos a recorrer à app Último Amigo, criada para ajudar os Decker mais solitários, e é assim que acabam por passar o seu último dia juntos.
Gostei muito das possibilidades com que o livro joga: se soubermos que este é o nosso último dia de vida, o que fazer com o tempo que nos resta? Com quem passar as nossas últimas horas? Quem arrastar para este desespero? Quais as nossas prioridades se informados de que não haverão mais «amanhãs»? Certamente não nos queremos ver na mesma situação que Mateo que acha que nunca arriscou, que não aproveitou a vida como devia e que agora não tem mais tempo para o fazer.
Adam Silvera deixa-nos a pensar na nossa própria mortalidade e na daqueles que nos rodeiam; nos fios invisíveis que nos ligam uns aos outros e na influência que temos na vida uns dos outros sem sequer imaginarmos. Assim, gostei da premissa do livro, gostei das possibilidades pelas quais a nossa mente vagueia durante a leitura, mas achei a construção do livro demasiado imatura, mesmo tendo em conta a idade dos protagonistas, e é por isso que me fico pelas 3 estrelas.
A minha Última Mensagem seria para todas as pessoas encontrarem a sua tribo. E tratarem cada dia como se fosse uma vida inteira.
Frases Preferidas:
Qualquer pessoa pode ter olhos bonitos, mas só a pessoa
certa consegue cantarolar o alfabeto e transformá-lo na tua melodia favorita
Esta pergunta tão pesada é a razão pela qual não queria que
ninguém soubesse que estou a morrer. Há perguntas às quais não sei responder. Não
sei dizer-lhes como chorar a minha partida. Não consigo convencê-las a não se
sentirem culpadas por se esquecerem do aniversário da minha morte, ou por
passarem dias ou semanas sem que tivessem pensado em mim. Só quero que as
minhas pessoas vivam.
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0 Dom Quixote de La Mancha | Opinião
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5 estrelas,
Miguel de Cervantes,
Opinião,
Romance
Autor: Miguel de Cervantes
Editor: Bertrand Editora (2010)

Género: Romance
Páginas: 848
Original: El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha (1605 - 1615)

opinião
★★★★★
D. Quixote é, pelas palavras de um dos primeiros personagens que conhecemos no livro, um «endireitador do mundo». Transitando de Quixada a Quixote, ou seja, de fidalgo tranquilo a cavaleiro andante, segue à cata de aventuras, «desfazendo agravos e endireitando tortos», arrastando atrás de si Sancho Pança, um lavrador que larga tudo e passa a escudeiro, desejoso de se ver governador de uma ilha tal como o amo lhe prometeu. O problema é que metade das circunstâncias são amplamente (!) alteradas pela fantasiosa mente de Quixote graças aos seus adorados livros sobre cavaleiros andantes, fonte de toda a sua sabedoria sobre o assunto.
Adorei o livro e toda a sua cómica ironia, todas as situações mirabolantes em que nos encontramos inesperadamente, junto com os protagonistas, e só posso louvar a magnífica tradução levada a cabo nesta edição!
Frases Preferidas
cada um é filho das suas obras
muitos vão buscar lã e saem tosquiados
Mas não me acuse de cruel nem de homicida aquele a quem não prometo nada, não iludo, não convido, nem admito. (...) Quem não ama ninguém não pode causar zelos a ninguém, e desenganar as pessoas não é desprezá-las. Quem me chama fera e basilisco, passe de largo como de coisa prejudicial e nefasta. Igualmente, quem me tenha por ingrata, não me sirva; por estranha, não procure conhecer-me; por fria e desapiedada, deixe de andar atrás de mim. Esta fera, este basilisco, esta ingrata, esta extravagante, esta cruel não os busca nem os serve, nem quer conhecê-los de nenhuma maneira.
neste tráfego da vida nada é coisa assente
não há dor que resista à morte, nem lembrança que o tempo não desvaneça!
Nunca a má sorte é tal que não escape uma portinha aberta para a gente procurar saída
Quem pode calar as bocas do mundo?! Pois não disseram mal de Cristo e mais era Deus?!
Ó lembrança, inimiga mortal da minha tranquilidade!
Ninguém é senhor de si aos primeiros impulsos
a quem busca o impossível é justo que o possível se negue.
Ó inveja, raiz de todos os males, e verme roedor de todas as virtudes! No geral os vícios, Sancho, trazem consigo um princípio de deleite; pois o da inveja não traz senão desgostos, rancores e desesperos.
e mais vale um toma que dois te darei (...) o conselho da mulher é pouco, mas quem o não toma é bem louco.
é no meio, entre os dois extremos da cobardia e da temeridade, que tem lugar a valentia.
a sorte manda e a razão pede, e, acima de tudo, a minha vontade deseja.
há quem faça e dê lume a livros como se fossem filhoses
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★★★★★
D. Quixote é, pelas palavras de um dos primeiros personagens que conhecemos no livro, um «endireitador do mundo». Transitando de Quixada a Quixote, ou seja, de fidalgo tranquilo a cavaleiro andante, segue à cata de aventuras, «desfazendo agravos e endireitando tortos», arrastando atrás de si Sancho Pança, um lavrador que larga tudo e passa a escudeiro, desejoso de se ver governador de uma ilha tal como o amo lhe prometeu. O problema é que metade das circunstâncias são amplamente (!) alteradas pela fantasiosa mente de Quixote graças aos seus adorados livros sobre cavaleiros andantes, fonte de toda a sua sabedoria sobre o assunto.
Adorei o livro e toda a sua cómica ironia, todas as situações mirabolantes em que nos encontramos inesperadamente, junto com os protagonistas, e só posso louvar a magnífica tradução levada a cabo nesta edição!
Frases Preferidas
cada um é filho das suas obras
muitos vão buscar lã e saem tosquiados
Mas não me acuse de cruel nem de homicida aquele a quem não prometo nada, não iludo, não convido, nem admito. (...) Quem não ama ninguém não pode causar zelos a ninguém, e desenganar as pessoas não é desprezá-las. Quem me chama fera e basilisco, passe de largo como de coisa prejudicial e nefasta. Igualmente, quem me tenha por ingrata, não me sirva; por estranha, não procure conhecer-me; por fria e desapiedada, deixe de andar atrás de mim. Esta fera, este basilisco, esta ingrata, esta extravagante, esta cruel não os busca nem os serve, nem quer conhecê-los de nenhuma maneira.
neste tráfego da vida nada é coisa assente
não há dor que resista à morte, nem lembrança que o tempo não desvaneça!
Nunca a má sorte é tal que não escape uma portinha aberta para a gente procurar saída
Quem pode calar as bocas do mundo?! Pois não disseram mal de Cristo e mais era Deus?!
Ó lembrança, inimiga mortal da minha tranquilidade!
Ninguém é senhor de si aos primeiros impulsos
a quem busca o impossível é justo que o possível se negue.
Ó inveja, raiz de todos os males, e verme roedor de todas as virtudes! No geral os vícios, Sancho, trazem consigo um princípio de deleite; pois o da inveja não traz senão desgostos, rancores e desesperos.
e mais vale um toma que dois te darei (...) o conselho da mulher é pouco, mas quem o não toma é bem louco.
é no meio, entre os dois extremos da cobardia e da temeridade, que tem lugar a valentia.
a sorte manda e a razão pede, e, acima de tudo, a minha vontade deseja.
há quem faça e dê lume a livros como se fossem filhoses
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0 O Pântano dos Sacrifícios | Opinião
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2 estrelas,
Opinião,
Susanne Jansson,
Thriller
Antigamente os pântanos eram usados como locais onde se realizavam sacrifícios humanos. Por serem pobres em oxigénio, estes terrenos atrasavam o processo de decomposição dos corpos, levando à sua preservação. Há por isso quem acredite que as almas lá enterradas não conseguem encontrar descanso, atraindo até si novas vítimas.
Nathalie Nordström é uma jovem bióloga que se desloca até a um pântano no norte da Suécia para realizar uma experiência de campo. Nathalie cresceu naquela zona, mas partiu quando uma terrível tragédia se abateu sobre a sua família.
Numa noite de tempestade, um mau pressentimento leva-a até ao pântano. Lá encontra um homem inconsciente, prestes a afundar-se. A polícia começa a investigar o caso e acaba por encontrar cadáveres ali enterrados.
Estará o pântano a reclamar mais sacrifícios, como alguns habitantes locais acreditam?
Autor: Susanne Jansson
Editor: TopSeller (Junho, 2018)

Género: Thriller e Policial
Páginas: 304
Original: Offermossen (2017)

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O Pântano dos Sacrifícios não traz novidade nenhuma ao seu género literário; é, na realidade, uma amálgama de clichés mal explorados que nos deixam a ideia de que a escritora ficou aquém de realizar os seus intentos. O livro é fraco no suspense e no terror, bem como na componente policial e romântica: como disse, parece que a autora tentou uma série de coisas e não foi particularmente bem-sucedida em nenhuma delas.
Apesar de fazer sentido, o final não me empolgou minimamente e acabei por perder o interesse no livro e no seu desfecho.
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opinião
★★☆☆☆
My rating: 2 of 5 stars
Apesar de fazer sentido, o final não me empolgou minimamente e acabei por perder o interesse no livro e no seu desfecho.
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0 Através dos meus pequenos olhos | Opinião
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2 estrelas,
Emilio Ortiz,
Opinião,
Romance
Cross é um cão-guia muito divertido e brincalhão. Mario é um jovem invisual que está prestes a começar uma nova etapa da sua vida. Juntos, vivem mil e uma peripécias, aventuras, derrotas e triunfos e tornam-se absolutamente inseparáveis.
Através dos meus pequenos olhos é um relato emocionante que narra as peripécias de Cross no mundo dos humanos e nos traz uma perspetiva diferente sobre o seu e o nosso mundo.
Autor: Emilio Ortiz
Editor: Porto Editora (Fevereiro, 2018)

Género: Romance
Páginas: 264
opinião
★★☆☆☆
Fiquei muito desiludida com este livro; ignorando a imaturidade da escrita do autor, é até bastante engraçado observar as diversas situações através da perspectiva do cão e acompanhar a leitura que ele faz do que o rodeia, mas o livro segue sem rumo, sem outro trunfo que não esse, culminando num final que até pode ter cumprido o propósito para o autor/personagem mas que eu achei abominável, arruinando por completo o livro e todo o intento do mesmo.
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0 O Fio da Felicidade | Opinião
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4 estrelas,
Jill Mansell,
Opinião,
Romance
Bastou um clique para Essie ficar sem casa, trabalho, namorado e tornar-se a mais recente piada da Internet. Tudo por causa de um e-mail infeliz enviado acidentalmente a TODOS os contactos; uma carta privada onde, bem…, desabafara coisas horríveis sobre a mãe do seu namorado (que, já agora, também era sua chefe!).
E quando a vida perfeita de Essie é arruinada, só lhe resta uma solução: começar de novo noutro sítio, fazer amigos e encontrar um emprego (de preferência, um de que goste).
E é assim que o azar de Essie a leva a uma nova cidade, onde conhece uma octogenária determinada a ser sua fada madrinha e um grupo de desconhecidos que lhe mostram o quanto do mundo ainda há para desfrutar.
Mas o que Essie não esperava era voltar a ver Lucas… O homem responsável pelo envio acidental do e-mail. Conseguirá ela perdoá-lo pela forma como a sua vida mudou?
Divertido e emocionante, é o livro perfeito para as leitoras que gostam de Sophie Kinsella, Jojo Moyes e de leituras absolutamente viciantes.
Uma história sobre bondade, perdão, e sobre como nos devemos apoiar nas pessoas que nos ajudam a encontrar a felicidade.
Autor: Jill Mansell

Editor: TopSeller (Outubro, 2018)

Género: Romance
Páginas: 368
Original: This Could Change Everything (2018)

opinião
★★★★☆
My rating: 4 of 5 stars
Já perdi conta às vezes que disse isto mas cá vai mais uma: podemos sempre contar com Jill Mansell para umas horas bem passadas!
Divertido e descomplicado, um livro ideal para as nossas pausas nas leituras mais pesadas e sérias. Gostei bastante.
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0 O Crime do Padre Amaro - Opinião
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4 estrelas,
Eça de Queirós,
Literatura Lusófona,
Opinião,
Romance
Autor: Eça de Queirós
Editor: Porto Editora

Género: Romance
Páginas: 512
opinião
★★★★☆
Amor, Paixão, Posse, Martírio – como uma semente impercetível que mal se sente entre os dedos e que se torna, com um pouco de sol e uma pouca de humidade, árvore enorme onde os pássaros cantos e os ventos rugem – 271
Gostei bem mais deste romance proibido entre um padre e uma beata provinciana do que estava à espera graças ao tom crítico e irónico – que chegaria a ser cómico se não refletisse uma triste realidade do seu tempo – com que Eça de Queirós o escreveu.
O escritor arranca do altar estes hipócritas membros do clero lá colocados por um país extremamente religioso, cheio de cegos e devotos seguidores, permitindo-lhes impor ao povo regras que os próprios quebravam sem qualquer consequência.
A corrupção moral destes homens – não mais que isso – é assim exibida; o modo como controlavam os crentes por meio da sua fé, manipulando-os em benefício próprio.
Um clássico que merece bem a nossa atenção.
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0 Em Tudo Havia Beleza | Opinião
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4 estrelas,
Manuel Vilas,
Opinião,
Romance
Falando desde as entranhas, Vilas revela a comovente debilidade humana, ao mesmo tempo que ilumina a força única da nossa condição, a inexaurível capacidade de nos levantarmos de novo e seguirmos em frente, mesmo quando não parece possível. É desenhando um caminho de regresso aos que amamos que o amor pode salvar-nos.
Confessional, provocador, comovente, Em tudo havia beleza é uma admirável peça de literatura, em que se entrelaçam destino pessoal e colectivo, romance e autobiografia. Manuel Vilas criou um relato íntimo de perda e vida, de luto e dor, de afecto e pudor, único na sua capacidade de comover o leitor, de fazer da sua história a história de todos nós.
Autor: Manuel Vilas
Editor: Alfaguara Portugal (Fevereiro, 2019)
Género: Romance
Páginas: 400
Original: Ordesa (2018)

opinião
★★★★☆
★★★★☆
Em tudo havia beleza [Ordesa] by Manuel VilasMy rating: 4 of 5 stars
A esperança de voltar a ver-vos, papá, mamã.
Sou apenas isso: esperança de voltar a ver-vos.
Tenho sentimentos mistos em relação a Em Tudo Havia Beleza; no final, acabei com um livro bastante sublinhado, cheio de frases que adorei, fonte de imensa e profunda reflexão, mas que na verdade pouco prazer me deu ler e que pouco me entusiasmou no processo.
Facilmente nos identificamos com os temas explorados neste livro – as perdas que sofremos ao longo da nossa vida, o inevitável fim e o triste envelhecimento que lhe precede – mas o modo desordenado como o autor partilha estas ideias e a frequência com que as repete, bem como a ausência de uma história propriamente dita, pode aborrecer-nos de morte.
Em suma, gostei do livro, de toda a sua melancolia e tristeza, de toda a sua sabedoria, de toda e cada frase preciosa, construída em moldes de perfeição, mas passei momentos muito maçadores na sua companhia.
Era o paraíso. Foi o meu paraíso. Foram eles o meu paraíso, o meu pai e a minha mãe, como gostei deles, como fomos felizes e como nos desmoronámos. Que bela foi a nossa vida em conjunto, e tudo está perdido agora. E parece impossível – 235
Frases Preferidas:
Somos todos pobre gente, metidos no túnel da existência – 12
Por muito mal que nos corra a vida, há sempre alguém que nos
inveja. É uma espécie de sarcasmo cósmico – 14
Os bancos arrasam-nos a caixa de correio com cartas
deprimentes. Uma série de extractos bancários. Vêm dizer-nos o que somos – 15
A vida de um homem é, na sua essência, a tentativa de não
cair na ruina económica. (…) Ninguém sabe se é possível viver sem ser socialmente.
A estima dos outros acaba por ser a única cédula da nossa existência – 16
Quando o nosso passado se apaga da face da Terra, apaga-se o
universo, e tudo é indignidade. Não há nada mais indigno que o cinzentismo da
existência. Abolir o passado é abjecto. A morte dos nossos pais é abjecta. É uma
declaração de guerra que a realidade nos faz – 31
Somos vulgares, e quem não reconhecer a sua vulgaridade é
ainda mais vulgar. O reconhecimento da vulgaridade
é o primeiro gesto de emancipação rumo ao extraordinário – 35
(…) e o demónio não é senão uma degeneração neuronal
hereditária que afecta o nervo óptico e se transforma em vagas de conexões químicas
apagadas ou titubeantes, e nessa deterioração elétrica da transmissão da
realidade incubam as bactérias da psicose, e a forma orgânica da vontade vai
apodrecendo numa massa de ordens alheias ao mundo social e vou-me transformando
num museu de secura, de solidão, de suicídio, de surdez e de sofrimento – 60
O problema do Mal é que nos transforma em culpados ao
tocar-nos. É esse o grande mistério do Mal: as vítimas acabam sempre culpadas
de algo cujo nome é outra vez o Mal. As vítimas são sempre excrementícias. As pessoas
simulam uma compaixão pelas vítimas, mas no seu interior só há desprezo – 70
Porque a literatura é matéria, como tudo. A literatura são
palavras gravadas num papel. É esforço físico. É suor. Não é espírito. Já basta
de menosprezar a matéria – 72
Toda a historia ocidental frequenta o idealismo, ninguém
parou para olhar para as coisas de outra maneira; especialmente da maneira mais
simples, a que se lembra da matérias, e das vãs realidades – 72
Quando a vida nos deixa ver o casamento do terror com a
alegria, estamos prontos para a plenitude – 75
O passado tem cada vez menos prestígio – 210
Porque a condenação é o resultado de qualquer julgamento que
se preze. A absolvição é insubstancial e esquecível. Só recordamos as
condenações. A absolvição não tem memória, os seres humanos são assim – 224
Era o paraíso. Foi o meu paraíso. Foram eles o meu paraíso,
o meu pai e a minha mãe, como gostei deles, como fomos felizes e como nos
desmoronámos. Que bela foi a nossa vida em conjunto, e tudo está perdido agora.
E parece impossível – 235
Todos caímos na armadilha do dinheiro. E todos acabamos por
ver o dinheiro como a forma final, e justa, de medir as coisas. É como o passo
definitivo rumo à objectividade. O dinheiro vem de uma ansia de objectividade. Ânsia
de inapelável. O dinheiro é a firmeza: perdê-lo enlouquece-nos; não o ganhar
transforma-nos em deficientes mentais, em tarados; o dinheiro é a veracidade
suprema, e isso é um espectáculo, é onde a nossa espécie consegue a sua maior
densidade, a sua gravidade – 251
Porque as angústia tem as caras mais estranhas do mundo –
296
Chega-se à indiferença por via da dor, da vacuidade, da
falta de gravidade – 304
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